Aprendendo a Nadar
“Hás de ter os olhos sempre bem postos em quem és, procurando conhecer a ti mesmo, que é o mais difícil conhecimento que se pode imaginar. De te conheceres virá o não te inflares como a rã que se quis igualar ao boi, e assim terás teu pé-de-pavão e recolherás a roda da tua vaidade na lembrança de que em tua terra já foste guardador de porcos.”
(Dom Quixote)
Desnecessário falar da falência do sistema educacional brasileiro. Estão aí as diversas e recorrentes avaliações internacionais a colocar nossos alunos entre os piores do mundo. Nem o Governo contesta esse estado de coisas, empenhado que está em inventar programas voltados à “melhoria da qualidade do ensino”.
Não entro no mérito dessas medidas, contentando-me com ignorá-las. Aqui, parte-se do princípio que o problema não é da qualidade dessa educação, porque não se trata de educação propriamente dita. Para usar uma imagem sugestiva o suficiente a tornar dispensável uma explicação, é como tentar melhorar a qualidade dos grãos de trigo quando o que se plantou e continua a plantar é apenas e tão-somente joio. Por óbvio, façam o que fizerem, não há como este se transformar naquele, ao contrário, é mais provável que o joio se fortaleça e multiplique ainda mais.
A palavra educação vem da raiz “ex ducere”, que significa “conduzir para fora”. Como ensina o professor Olavo de Carvalho: “Pela educação a alma se liberta da prisão subjetiva, do egocentrismo cognitivo próprio da infância, e se abre para a grandeza e a complexidade do real.”.
Portanto, toda educação se inicia pelo famoso dístico do Oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. Afinal, como se libertar de si mesmo sem (re)conhecer gostos, aptidões, preferências, temperamento, etc., para ficar apenas no mais básico do que há em nós? Ocorre que, nosso sistema de ensino simplesmente ignora esse princípio, dando por pressuposto que isso se resolve em casa. Mas, como se resolveria se a criança é obrigada a entrar na escola antes dos 7 anos de idade? Ou seja, ao tornar o ensino obrigatório em tão tenra idade, a escola também compartilha desta responsabilidade.
Além disso, tampouco esse sistema apresenta a “complexidade do real” como tal, mas retalhado em diversas matérias incomunicáveis entre si, e abstraídas de qualquer realidade como se fossem “coisas em si” kantianas. Por isso, é mais do que comum encontrar alunos que acreditam, com acerto, que a escola nada tem a dizer sobre a realidade e esta, por sua vez, parece não ter nada a ver com o ensino.
Talvez você se lembre do quão absurda a escola lhe pareceu quando era garoto(a) ou adolescente, quando nada do que lhe ensinavam na sala de aula se referia a algo do que vivia fora dela. Com sorte, a Universidade também lhe foi intolerável, mas é mais provável que, nessa época, você tenha recusado se perguntar acerca da conexão do ensino com a realidade, tratando logo de calar qualquer incômoda consciência da presença inafastável do real, tentando soterrá-lo sob os escombros de conhecimentos específicos que viessem a lhe garantir, ao menos, um emprego, e na “melhor” das hipóteses, a fama e o sucesso profissional. Talvez você viva essa situação nesse exato instante.
Assim, dentre outras, a conseqüência mais grave desse método e sistema é a infecção da denominada paralaxe cognitiva. “A paralaxe cognitiva é o deslocamento entre o eixo da experiência real de um homem e o eixo da construção teórica que ele empreende como pensador ou cientista“, ensina Olavo de Carvalho. Como todo homem é um pensador da sua própria vida, logo, a paralaxe cognitiva não é “privilégio” de intelectuais e cientistas, mas pode afetar a qualquer um, ainda mais quando ela é, na prática, o pressuposto do que resolveram chamar de educação.
Ou seja, qualquer brasileiro que frequente ou tenha freqüentado escola, independente do que aprenda ou possa ter aprendido das matérias lecionadas, certamente foi adestrado a desconectar seu pensamento da realidade sobre a qual acredita raciocinar. É que a paralaxe não “ataca”, primeiramente, o conteúdo do que se estuda, seja ele certo ou errado, mas a forma com que se aprende e apreende a realidade. Querendo ou não, a estruturação da percepção cognitiva do aluno brasileiro e a consequente ordenação da sua inteligência foram afetados por esse fenômeno em algum grau.
Esse estado de coisas se configura trágico ao se perceber que todas as gerações de brasileiros ainda vivos foram assim (de)formadas e estamos próximos de “erradicar” o analfabetismo, com quase 100% das crianças matriculadas nas escolas. Se a conseqüência disso fosse infestar a nação de analfabetos funcionais, ainda teria algum remédio. Entretanto, o resultado disso é muito pior, pois, com essa disseminação epidêmica da paralaxe, não é por acaso que a maioria das pessoas que você conhece já não sabe “nem o que é, onde está e para onde vai”, para parafrasear Thomas Mann.
Mas o que aqui se diz não é nenhuma novidade. O citado filósofo Olavo de Carvalho há mais de década empreende esforços no sentido de denunciar essa situação e tentar minimizar o estrago, através dos seus diversos cursos que mantém lecionando. Além do que, não cansa de apontar direções:
Com a internet, essas possibilidades, guardadas as devidas proporções, estão disponíveis a qualquer um. Além disso, também graças ao trabalho do filósofo, hoje há outros a travar esse bom combate, valendo destacar estas valorosas iniciativas: IICS - Módulos de Educação Liberal e Aristoi.
A elas “O Náufrago” vem se somar, na esperança de, ao menos, despertar a consciência do abismo em que submerge. Àqueles que voltarem a “agitar seus braços salvadoramente”, algo mais se espera ofertar. Porque nunca é tarde para (re)aprender a nadar.
