Para Você

by Francisco Escorsim

Você sabe que sempre que me lembro daquele dia a primeira coisa que se renova é o seu riso enquanto eu imitava aquele apresentador de TV? Isso! O “Boca de b...” havia se perdido com as câmeras do telejornal daquela noite e não conseguia acertar uma. Só depois de umas cinco ou seis notícias ele enfim olhou para a câmera correta.

Você estava de pé, à esquerda, perto da porta de entrada da casa dos pais da Aninha, e, eu, sentado no sofá, tomei um susto quando vi que você ria, que você gostava. Justo você!, que eu tinha certeza de que me detestava!

Daí por diante eu confesso que tudo se mistura confusamente na minha memória, como se fosse um sonho desconfiado da sua realidade. Mas isso só vai até o momento do nosso beijo conquistado sem palavras naquela pista de dança. Disso eu me recordo bem, do nosso olhar cada vez mais próximo, da confusão de som e luzes se desfazendo de imediato, do caminho que fomos abrindo em meio à multidão em busca da confirmação do que, sim, do que já sabíamos, não apenas desconfiávamos.

Como pudemos saber desde o primeiro instante? Ainda que até hoje eu diga que não sabemos por que ficamos juntos naquela noite, que pareça ter sido por acaso, só de farra, só para ver qual era, ainda que eu diga todas essas bobagens, a verdade é que ambos sabíamos desde o primeiro instante.

Eu posso vê-la meses mais tarde conversando com a Vivi na Faculdade, dizendo: “Sabe, Vivi, acho que encontrei. É ele.” O que imediatamente me transporta à semana seguinte daquele beijo, naquele quarto de hotel em que eu não estava e onde você, debaixo do lençol, escutava suas amigas dizendo que você estava apaixonada. Também gosto de me imaginar confessando o mesmo, mas eu não me abria com ninguém, nem comigo mesmo, o que não impediu que fosse verdade também para mim.

Quando nem juntos ainda estávamos, como se o tempo das coisas nada importasse, mesmo com a maldita “razão” tendo todos os motivos do mundo para nos desacreditar (porque sempre haverá razões para desacreditar qualquer um), ainda assim, sabíamos.

Por isso não houve qualquer dúvida ou receio naquele dia na casa dos teus pais, quando eu disse que era cedo, mas que eu já a amava. Só de lembrar me faz sentir seus braços enlaçando meu pescoço e seu sorriso franco me respondendo: “eu também!”.

Com a mesma certeza fácil de quem não recusa a realidade, tampouco não sabota o melhor de si, nós noivamos e casamos. Em nenhum momento algum de nós perguntou: “será?” Isso não teria feito o menor sentido. Simplesmente sabíamos, e sabíamos também que era chegada a hora. Por isso estávamos tão genuinamente felizes no dia do casamento. Nem parecia que somos dessa geração que finge que essas coisas não importam.

Mas o que mais me alegra é que nunca perdemos essa certeza, nem mesmo nos piores momentos. Ao contrário, foram neles que ela melhor resplandeceu. Por exemplo, você se lembra de quando, não, é claro que você se lembra daquele fim de tarde em Maceió, de quando você não teve coragem de ficar no banheiro daquele outro quarto de hotel, esperando aquele maldito tracinho ficar na cor rosa (ou era azul?).

Mas eu fiquei lá, agachado diante da pia e com o queixo nela apoiado, esperando, esperando, esperando e, enfim, não era para ser. Caminhei até a sacada onde você se abraçava tentando conter a expectativa que vinha dissolvida no meu olhar. Mas não perdemos tempo com lamentações, nem quando a demora angustiava cada dia mais. Porque sabíamos que a espera seria recompensada, que chegaria o dia em que experimentaríamos um legítimo estado de graça.

Eu confesso que fiquei tão abobalhado quando isso aconteceu que não sei exatamente como isso se passou para você. Aliás, pouco me lembro dos detalhes, senão de que eu não conseguia dormir de jeito algum e então me levantei, movido sabe-se lá pelo quê, sem saber para onde ir, sem coragem de acender qualquer luz, ligar a TV, fazer qualquer coisa. Subitamente me vi de joelhos no tapete da sala, mirando pela porta da sacada a distância encurtada pela noite. Então, agradeci, aos prantos, aos soluços, como nunca antes, como talvez nunca mais.

Mas também não era para ser. Acho que nunca vou me esquecer de quando voltamos do médico e você já sabia, apesar da ausência de confirmação. Você tinha essa certeza transbordando em lágrimas fugitivas, diante das quais minha tola esperança não teve defesa. Paramos no supermercado para comprar pão, mas pão fresco não havia. Então decidimos esperar que ficasse pronto. Por que fizemos aquilo, quando esperar era a única coisa que não suportávamos mais fazer?

Porque era só o que havia para fazer. Não sei, mas, sinceramente, acredito que foi nesse momento, nesse intervalo de rotina banal, quando ficamos em silêncio esperando pelo pão, que percebemos que não se tratava de uma tragédia. Por mais doído que fosse admitir isso, a realidade é que o acontecido dava muito mais motivos para acreditar no contrário daquilo que havíamos perdido pelo caminho.

Eu não estive ao seu lado naquele corredor, eu não assisti as grávidas passando radiantes, não escutei os gritos de alegria preenchendo o ar à sua volta com o sentido que havia brincado de estar presente dentro de você. Eu não posso sequer imaginar a solidão que você sentiu. Mas eu desconfio que era parecida com a minha naquele quarto cuidado pelo silêncio acostumado à resignação.

Por mais fragilizada que você estivesse, por mais miserável que eu me sentisse, quando nossos olhares se encontraram no instante em que você entrou no quarto, nós sabíamos; mais uma vez, nós sabíamos. Não se tratava de acreditar, não se tratava de esperança. Tudo isso não fazia sentido. Acreditar ou não era irrelevante porque o que cada um deu ao outro naquele momento foi uma confiança tão impossível quanto inexplicável de se possuir naquelas condições. Ainda assim, foi isso, era confiança, daquelas inquebrantáveis, de tal modo segura de si que ainda éramos de algum modo gratos, gratos por absolutamente nada, por ainda menos do que isso.

Espanta que não tenha demorado quase nada para a chegada do tempo de uma outra espera, de um outro corredor, de uma outra alegria, de um outro quarto completamente tomado de sentido, de uma outra matemática que reinventava a realidade, onde 1+1 é 3 e não apenas 2?

De repente, fomos nós quem nos tornamos outros. Mas ainda não é o tempo de descrever esse privilégio de presenciar o melhor que não tem limites e ainda melhor ficará, pois logo virá um outro outro que nem sequer foi concebido, mas já está aqui, desse jeito que sabemos bem como é, como funciona.

Não, não se preocupe. Não escrevo sobre isso por conta daquela imperiosa necessidade de me (re)conhecer, de entender por que eu a escolhi (ou vice-versa), ou de descobrir por que eu amo você. Não, não preciso mais disso, pelo menos não do jeito que estava sendo.

Prometo: acabaram-se os dias “de casulo”. Ao menos com você fora dele, e é por isso que lhe escrevo, e é por isso que esse texto está publicado aqui. Porque faltava eu parar de falar olhando para a direção errada, como o “Boca de b…”, entende? Não pense que haverá uma parte da minha vida da qual você só assistirá de camarote, sem participar. Isso é simplesmente impossível, inadmissível.

Não, nunca nada mudou, mesmo nos meus piores momentos. Sim, eu fui piorando aos poucos, e piorei ainda mais quando comecei a melhorar. É a tal da história da semente que apodrece para depois, bem, que importa? Como diz nosso filho: nunca! E nunca nada mudou mesmo, nem quando a tristeza se aninhava cada vez mais no seu olhar, nem quando você chegou mesmo a perder a fé em mim, em nós.

Eu sei que lhe dou poucas flores, raros jantares, quase nunca lhe levo o café da manhã na cama, jamais saímos para dançar, tampouco consegui, pelo menos até agora, levá-la em viagens daquelas que “terás, querida, terás!”. É, definitivamente meu forte não é ser “rrrrrromântico”, mas acho que não é bem isso que você espera de mim, certo? Se for, avise-me, porque não me custa nada chegar hoje em casa coberto de orquídeas ou tulipas.

Também sei que nosso gosto musical não é exatamente o mesmo, mas eu acho que não vou errar tanto assim com essa canção que escolhi para encerrar esse texto (desconsidere o clipe e acompanhe a letra logo abaixo). De certa forma ela traduz muito melhor o meu estado de espírito do que qualquer coisa que eu possa dizer ou escrever. Saiba que não tem havido coisa melhor nos últimos meses do que voltar para casa e encontrar no seu olhar a felicidade por me ver chegar.

“Tonight The Streets Are Ours”
Richard Hawley

Do you know why you got feelings in your heart?
Don’t let fear of me then fool you.
What you see sets you apart.
There’s nothing here to bind you, it’s no way for life to start.

Do you know that tonight the streets are ours?
Tonight the streets are ours.
These lights in our eyes they tell no lies.

Those people they got nothing in their souls
And they make our tv’s blind us from our visions and our goals.
Oh, the trigger of time it tricks you, so you have no way to grow.

Do you know that tonight the streets are ours?
Tonight the streets are ours.
These lights in our eyes they tell no lies.

And no one else can haunt me the way that you can haunt me.
I need to know you want me.
I couldn’t be without you and the light that shines around you.
No, nothing ever matter more than my darling.

But tonight the streets are ours.

Do you know how to kill loneliness at last?
Oh, there’s so much there to heel thee
And make tears things of the past.

But you know that tonight the streets are ours?
Tonight the streets are ours.
These lights in our streets are ours.
Tonight the streets are ours.
These lights in our hearts they tell no lies