Autumn Leaves

by Francisco Escorsim

E acabou-se o veranico de maio. As gentes viventes acima do trópico de capricórnio não compreendem o significado disso para os sulistas, ao menos, nós, curitibocas.

Por aqui, verão e inverno são estações sem medida, como aquele tio em festas de casamento. É sempre quente ou frio demais. Quando chegam, não dá uma semana e já se ouve neguinho sentindo falta do outro. É um desconforto só. Sobrevive-se, apenas, como aquele tio depois das festas de casamento.

A primavera, por sua vez, só irrita, porque nunca esquenta o suficiente a dar a sensação do agradável, e quando o faz, torna-se verão. Já o outono começa bem. O calor insuportável arrefece sem desaparecer, permitindo raciocinar ao ar livre, enquanto se caminha vagarosamente entre sorrisos insuspeitos da sua causa, ou bebe-se um chopp com os amigos, igualmente alegres sem aparente razão. Ou seja, minha primavera é o princípio do outono.

Porém, isso não dura muito e nem meio do outono é quando o inverno abruptamente se instala, desfazendo as promessas da perfeita atmosfera. Geadas constantes recobrem de melancolia os humores já desacostumados a circunstâncias hostis. As semanas se arrastam, enquanto o vento ruidosamente invade o apartamento pela saída do aquecedor a gás.

Entretanto, é justamente quando tudo é espera esquecida de si mesma que, de repente, o sol ressurge, devolvendo ao olhar feito estrangeiro, distante, descrente, a presença renovada de todas as formas. Não há melhor época do ano para, simplesmente, prestar atenção.

Esqueça o casaco em casa e saia de braços descobertos, estranhando a facilidade de seguir adiante. Perceba a ausência, tanto do frio quanto do calor. Perceba, deixando o olhar correr por longas e retas avenidas de árvores desfolhadas, terminando em algum ponto inabitado onde o azul cristalino do céu parece repousar.

Não há pôr-do-sol como esses de maio. Repare na nitidez do horizonte, nas cores próximas a envolvê-lo. Permita-se encantar e encantado ficar. Ao menos, até o veranico acabar. Porque ele não dura muito. Com sorte, avança além de uma semana, mas não passa de duas.

É nessa clave que a existência escancara seu sentido, exposto à contemplação da alma, desde que sintonizada nesse tom suave da eternidade a executar a melodia do paraíso, sempre renovado nos movimentos da introspecção auto-satisfeita do inverno, do otimismo aliviado da primavera, da alegria involuntária do verão, da despedida alentadora do outono.

Então, mais uma vez, o frio retorna, violento, congelando o cenário na expectativa da permanência, expulsando toda brandura, com sorte guardada nos bolsos da alma, aquecida na beleza suave de uma recordação, revivida sempre que se arrisque voltar o olhar ao céu, continuamente azul, ainda que mais distante, riscado, vez em quando, por galhos desfolhados de árvores com raízes cobertas de concreto, teimosamente erguidas, inviavelmente soberbas.