Cinema & AutoConhecimento

By Francisco Escorsim • Mar 18th, 2008 • Category: Cursos, O Cinema Como Instrumento de Autoconhecimento

Como descrito na página “Aprendendo a Nadar”, não há quem não sofra, em algum grau, de paralaxe cognitiva, pois dela dificilmente pôde se defender, tendo em vista configurar pressuposto e conseqüência inevitável do próprio sistema educacional adotado no país. Eis porque ela se tornou um hábito a que se obedece “por puro automatismo, com a facilidade de quem respira” (apud Olavo de Carvalho).

Portanto, qualquer pretenso estudante brasileiro, ainda mais autodidata, tem o dever de, antes de tudo, confrontar-se consigo mesmo para verificar a presença dessa doença e a extensão dos seus estragos. Sem isso, de nada vale começar a estudar as “coisas certas”, supostamente do “jeito certo”, quando se permanece refém inconsciente do modo de aprender adquirido na escola, partindo do pressuposto introjetado de que a mera compreensão lógica de um discurso qualquer significaria seu real entendimento.

Ou seja, será como conhecer e admirar o cardápio de todos os bons restaurantes, mas nunca provar da comida e ainda assim estar crente que a tudo comeu. Por isso, é comum encontrar quem participe, por exemplo, de um curso de leitura dos clássicos, mas é incapaz de ir além da discussão dos livros, sem nem mesmo perceber que ignora completamente os objetos reais a que eles se referem.

Isso implica dizer que não se cura a paralaxe cognitiva exclusivamente pelo estudo teórico, seja dela mesma ou de qualquer outra coisa. Ao contrário, assim agindo é mais provável aprofundá-la do que resolvê-la.

Desta forma, o que aqui se propõe é uma espécie de “dieta” da teoria, seja ela qual for, acompanhada de um “fechamento para balanço” do pensamento, com o conseqüente retorno da atenção à experiência real que deve ser, primeiramente, percebida por sua própria presença e só depois pensada, se necessário.

Entretanto, no meio desse caminho, é indispensável realizar conexão com o mundo da memória e da imaginação, pois, como ensina o referido filósofo Olavo de Carvalho: “Toda a psicologia, de Aristóteles a Piaget, mostra que a inteligência racional não opera diretamente sobre os dados dos sentidos, mas sobre as imagens, os “fantasmas”, diziam os gregos, depositados na memória.”

Ou seja, para que a construção teórica tenha se deslocado da experiência real, é porque esse desvio ocorreu na operação da inteligência racional sobre esses “fantasmas” e os conceitos abstratos decorrentes. Assim, se esses conceitos estão desplugados da realidade mais patente, então é porque as imagens, os fantasmas sobre os quais foram fundados, ou não a representam ou são facilmente falseados pelo citado pressuposto introjetado, o qual deságua no diabólico entendimento de que os fatos é que deveriam se adequar à teoria, e não o contrário.

Portanto, essa jornada em direção à experiência real passa necessariamente pela tomada de consciência desse material depositado na memória, composto, primeiramente, pela própria experiência de vida, outro tanto daquilo que se guardou da experiência alheia e, na sua grande maioria, do imaginário legado pela cultura.

Por isso, todo conhecimento, toda civilização se ergue sobre um fundo imaginário. A tremenda estabilidade, a sanidade inabalável de tantas culturas primitivas dotadas de nada mais que um mínimo de saber científico deveu-se justamente à adequação entre seus esquemas imaginativos e a realidade da sua experiência vivida. Envoltos em mitos e lendas, esses homens antigos podiam nada saber de quarks e buracos negros, mas tinham um pressentimento certeiro do lugar da existência humana no cosmos e sabiam traduzi-lo em atos e palavras dotados de sentido.

Assim, para melhor auxiliar o interessado nessa viagem, o ideal é o trabalho individualizado, pelo método tutorial, sobre o material fornecido pelas próprias recordações e pelo imaginário particular do aluno. Embora essa opção aqui também se ofereça, da qual se dará mais detalhes ao fim deste texto, dado o atual estado de coisas, o trabalho coletivo é medida que se impõe. Se, de um lado, isso pode prejudicar o trato com as experiências pessoais de cada aluno, por outro, o diálogo permite realçar aspectos insuspeitados do imaginário coletivo que, de um modo ou outro, modelou o de cada um.

A opção pelo cinema como veículo dessa travessia não é casual, nem preferência pessoal, mas parte também da realidade da experiência. O cinema, principalmente depois do advento da televisão, tem potencial de alcance e penetração no imaginário coletivo muito maior do que outras formas de arte. Só isso basta para justificar sua escolha, assim como a dos filmes com que se trabalhará, pois praticamente todos tiveram ou têm considerável repercussão, não apenas assistidos por milhares de pessoas, como invariavelmente muito discutidos e analisados.

Desta forma, o que aqui se propõe é utilizar o cinema para descortinar esses imaginários, coletivo e individual. Com isso, quer-se fornecer a ocasião para a indispensável tomada de consciência do abismo interior que há entre as construções teóricas e a experiência real de cada um. Também, espera-se iniciar a modificação daquele hábito citado acima, acostumando o aluno a pensar desde a sua experiência real atual e depositada na memória, mesclada ao imaginário, agora, em parte, desfraldado.

Para tanto, como já é óbvio, este “curso” (chamo assim por falta de melhor denominação) não se configura em discussão ou palestras sobre os filmes. Esses podem ser excelentes ou mesmo péssimos que tanto faz, como tanto fez. Aqui, interessam os reflexos que espelham de aspectos da realidade. Por isso, não raro a escolha se deu não pela história, mas por conta de algum personagem ou cena ou diálogo, etc. Também foram escolhidos filmes que, em si mesmos, nada representam, mas comparados com outros semelhantes, completam-se formando um retrato mais nítido do real, inclusive permitindo visualizar a encarnação histórica de idéias, valores e teorias.

Nesse sentido, é natural que outros filmes, não selecionados abaixo, venham a ser inseridos no decorrer do trajeto, inclusive por indicação dos próprios alunos, como lugares insuspeitados que valem a visita ou o compartilhar de pontos de vista diversos na sua singularidade, mas que se reencontram quando voltados à percepção da realidade.

Dito isso, o “curso” segue dividido em módulos, cada qual podendo se realizar em uma ou mais videoconferências (via Skype), conforme o andamento dos trabalhos. Esse curso também pode ser realizado presencialmente, caso você more em Curitiba ou possa até aqui se deslocar. Àqueles interessados no método tutorial, seja virtual ou presencial (caso more em Curitiba ou tenha a disponibilidade referida), por certo se iniciará o trabalho pelos filmes que lhe marcaram, por uma razão ou outra, incluindo-se outras formas de arte, especialmente a literatura. Para maiores informações a respeito disso e também, notadamente, sobre detalhes técnicos para participar das videoconferências, preço e datas disponíveis, favor entrar em contato com: foescorsim ‘at’ gmail.com (substitua o ‘at’ por @).

Por fim, se quiser saber mais sobre o “professor”, leia os ensaios sobre alguns dos filmes citados abaixo, devidamente linkados, para se ter uma idéia do que se encontrará nesse curso. No mais: “Operibus credite, et non verbis.” (Acreditai nas obras, e não nas palavras)

Módulo I – O Fato Concreto e o Senso da Realidade

1- United 93
2- Tropa de Elite
3- A Paixão de Cristo

Módulo II– A Abstração Demoníaca dos Prós e Contras

1 – Million Dollar Baby
2 – Mar Adentro
3 – Os Últimos Passos de Um Homem

Módulo III – As Idéias Têm Conseqüências (Parte 1)

1 – Sociedade dos Poetas Mortos
2 – Curtindo a Vida Adoidado
3 – Lost In Translation

Módulo IV – As Idéias Têm Consequências (Parte 2)

1 – Short Cuts
2 – Magnólia
3 – Crash
4 – Babel
5 - Trainspotting

Módulo V – Aceitando a Realidade como Tal

1 – Seven
2 – Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men)
3 – A Última Noite (25th hour)
4 – A Última Ceia (Monster’s Ball)
5 - Closer

Módulo VI – O Sentido da Vida

1 - O Quinto Passo (Levity)
2 - Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption)
3 – A Felicidade Não Se Compra
4 – Mais Estranho Que A Ficção (Stranger Then Fiction)

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