A Montanha Mágica
By Francisco Escorsim • Feb 25th, 2008 • Category: Literatura“O indivíduo pode visar numerosos objetivos pessoais, finalidades, esperanças, perspectivas, que lhe dêem o impulso para grandes esforços e elevadas atividades; mas quando o elemento impessoal que o rodeia, quando o próprio tempo, não obstante toda a agitação exterior, carece no fundo de esperanças e perspectivas, quando se lhe revela como desesperador, desorientado e falto de saída, e responde com um silêncio vazio à pergunta que se faz consciente ou inconscientemente, mas em todo caso se faz, a pergunta pelo sentido supremo, ultrapessoal e absoluto, de toda atividade e de todo esforço – então se tornará inevitável, justamente entre as naturezas mais retas, o efeito paralisador desse estado de coisas, e esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral, e de afetar a própria parte física e orgânica do indivíduo.”
Assim sendo, embora reconheça a improbabilidade de sucesso dos esforços pedagógicos, como se nota pelo resultado daqueles realizados por Settembrini e Naphta sobre Hans Castorp, o personagem principal da história, Mann não dissimula possuir essa pretensão em relação a seus leitores. Tanto é assim que, como se vê na passagem transcrita acima, a tudo o autor explica, instruindo o leitor durante toda a narrativa, especialmente nos seus momentos mais relevantes, praticamente explicitando os significados dos símbolos usados ou dando pouca margem à interpretação do sentido dado.
Mas, o que Thomas Mann quer ensinar? Primeiro, que não prestavam as idéias e ideais em voga naquele tempo e aqueles que tinham o dever de evitar esse estado de coisas ou combatê-lo, eram justamente quem mais o alimentava. Assim fizeram os supostos representantes da razão e do Espírito humanos, os referidos Naphta e Settembrini, como o médico Behrens e também o psicólogo Krokovski, seja por desconsiderarem uns aos outros, crendo ser possível solucionar os problemas apenas focando um dos seus aspectos, como faz o médico, ou porque traíram sua natureza e o dever do seu ofício, como o psicólogo e os ditos pedagogos.
Realmente, os remédios para o corpo apenas pioravam a situação, pois forçavam os doentes a se retirarem do tempo da existência, “libertando-os” da responsabilidade por suas próprias vidas. Tanto é assim que Hans Castorp, depois de algum tempo daquele tratamento, percebia seu corpo se descolando da alma: “eu queria somente dizer que é uma coisa sinistra e penosa ver o corpo levar uma existência própria, independente da alma, e dar-se ares de importância”.
Dessa percepção, ele tentava encontrar uma resposta: “e a gente se esforça por encontrar um sentido nessa coisa; procura-se a emoção indispensável, um sentimento de alegria ou de medo, que as justifique de certo modo”. Aí se abria o flanco para o psicólogo. Encantando como um mágico, dava “sentido” à doença dizendo que por causa dela os doentes tinham mais chances do que os sãos de resgatarem o “amor perdido” que supunha ser o mal do mundo. Com isso, selava a fuga da realidade de quem já estava mais do que predisposto a tanto. Não por acaso, os símbolos usados pelo autor para construir esse personagem são as vestes negras e o local do seu consultório, nas catacumbas do sanatório, o que dispensam interpretação.
E o que dizer dos representantes da Razão e do Espírito humanos? O escritor Settembrini percebia o absurdo das idéias do psicólogo e os riscos que corria com o tratamento do corpo:“não me fale da ‘espiritualização’ que pode resultar da enfermidade, por amor de Deus não faça isto! Uma alma sem corpo é tão desumana e horripilante quanto um corpo sem alma. A primeira é, aliás, uma rara exceção, e o segundo, o mais comum. Via de regra é o corpo que exubera, açambarca a vida e toda a importância, e se emancipa da maneira mais asquerosa. Um homem que vive enfermo é corpo e nada mais, e nisto está o anti-humano, o aviltante…na maioria das vezes não vale mais que um cadáver”.
Entretanto, ele também era paciente desse sanatório, o que é suficiente para invalidá-lo como sendo legítimo representante da Razão e do Espírito. Por isso, o autor o apresenta como sendo o “Satã” que vai aposto no título do capítulo em que ele surge pela primeira vez. O símbolo do demônio possui inúmeros significados, mas ele nunca deixa de ser aquele que traiu a sua natureza. É nesse sentido que Settembrini é considerado o Satã da história, a quem depois se juntará Naphta, o padre jesuíta comunista, também não por acaso apresentado no capítulo denominado “Mais Alguém”.
Mas qual a natureza que ambos traíram? O primeiro acredita representar a razão humana, a qual considera responsável pelas conquistas materiais da época, de avanço tecnológico e econômico, no que condensa boa parte das idéias em voga no início do século XX e mesmo depois: humanismo, positivismo, liberalismo, capitalismo, industrialização, nacionalismo, progressismo, tecnicismo, etc. Entretanto, Settembrini se orgulha tanto da capacidade racional humana que toma por ela reverente apreço, como se fosse uma divindade, substituindo-a ao Espírito. Do outro lado, Naphta parece surgir como o defensor do Espírito contra esse racionalismo materialista. Contudo, não demora muito e seus reais valores aparecem no surrado discurso comunista, socialista, travestido com uma roupagem interpretativa das Escrituras suficientemente distorcida para considerar o mundo como sendo do proletariado, cuja única saída seria fazer a revolução, a guerra.
Assim, revelam-se como faces da mesma moeda, tanto que, durante suas discussões, suas vozes se confundiam, a ponto do leitor não conseguir discernir quem defendia o quê. Ou seja, na realidade, ambos pregavam a mesma coisa: o desalojar do Espírito do seu posto e função na realidade e natureza humana. É aqui que o símbolo da montanha mágica resplandece em todo seu significado. A montanha simboliza o local da morada dos deuses, o destino da ascensão espiritual humana. Porém, na montanha desse homens não há Deus, mas apenas eles próprios, adorados através dos ídolos (progresso, pobreza, etc.) colocados no lugar dEle. Por isso, essa montanha não é real, mas mágica e em vez da ascensão espiritual, ocorre a decadência de tudo o mais, pois, sem Ele, nada se sustenta.
Assim, a montanha mágica de Thomas Mann nos remete à bíblica Torre de Babel, que também foi um fenômeno social, coletivo. Como ensina o Padre Antônio Vieira, no seu Sermão da Epifania: “Quando Deus confundiu as línguas na torre de Babel, ponderou Filo Hebreu, que todos ficaram mudos e surdos, porque, ainda que todos falavam e todas ouviam, a nenhum entendia o outro”. Realmente, Naphta e Settembrini travaram inúmeros debates retóricos sobre suas diferenças, mas eram incapazes de se entender, de tal modo que só conseguiram “resolver” essas diferenças através do duelo mortal para aquele.
Com isso, o autor não permite ao leitor considerar que a contrafação dessas idéias levaria ao denominador comum onde se poderia encontrar o verdadeiro sentido do humano. Não, para Thomas Mann, tanto faz quais sejam essas idéias e ideais, pois, quando partem da soberba do homem em relação a Deus, ao Espírito, só podem resultar na destruição que se avizinhava no momento em que a história se passava. Ou seja, só existe o humano pelo e no Divino. Fora disso, estamos diante da maledicência demoníaca. Daí porque não é exagero algum tratar esses personagens como representantes de Satã.
Nesse cenário, segundo o autor, somente alguém com um quê de heróico ou uma vitalidade mais robusta poderia conquistar um isolamento moral e independente do meio que o preservasse da degradação. Aqui se tem sua segunda lição, pois, essas qualidades não são dons inatos de poucos escolhidos, mas pura força de vontade, que, todos, sem exceção, são capazes de possuir, desde que assim queiram: “onde falta a coragem moral da decisão, começa o processo da decomposição”.
Por isso, Thomas Mann considerava Hans Castorp um medíocre. Porque poderia lutar por um destino diverso, mas assim não quis, mesmo ciente da realidade que enxergava à sua volta no sanatório: “É como se se descortinasse o interior do homem, e tudo fosse lodo e pântano…”. Mais do que isso, tinha consciência do processo que nele se passava, à medida que por lá permanecia voluntariamente: “no início a gente se escandaliza e experimenta sentimentos de distância, mas de repente ‘intromete-se qualquer coisa completamente diversa’, que ‘nada tem que ver com o juízo’, e logo se acaba a indignação moral, a ponto de as pessoas se tornarem quase inacessíveis a influências pedagógicas de natureza republicana ou eloquente.”.
Ora, nada de diverso se intrometeu ali, tratando-se apenas e tão somente do resultado do tratamento a que livremente se entregou, qual seja: o amortecimento da sua consciência até o ponto em que já não mais a reconhece como tal. Eis porque Thomas Mann, através do médico Behrens, repreende toda sua geração infestada de Hans Castorp:
“O senhor sempre quer que tudo seja inofensivo, Castorp. É essa a sua índole. Às vezes não se mostra avesso ao contato com coisas nada inofensivas, mas então as trata como se fossem perfeitamente inocentes, e com isso pensa agradar a Deus e aos homens. O senhor é uma espécie de covarde e de hipócrita, meu caro(…). O senhor quer me importunar e maçar, para que eu o confirme na sua maldita hipocrisia e para que o senhor possa dormir o sono dos justos, enquanto outras pessoas velam e se expõem à tempestade.”
Não, melhor prestarmos atenção em outro personagem que chegou a possuir essa vitalidade robusta tão necessária, segundo o autor, para resistir àquele meio. Trata-se do holandês Peeperkorn, que, entretanto, não mais a tinha, pois também se internara naquele sanatório. Sua diferença para os demais é que tinha consciência da sua falta, do seu pecado contra o Espírito, a qual se revela pelos símbolos da águia, da cachoeira e da serpente.
Primeiro, durante um passeio que fazia com outros personagens, ela chama a atenção de todos para uma águia, a quem pede que desça e crave suas garras na cabeça e nos olhos do Homem. A águia, rainha das aves, simboliza a integridade da força do Espírito, o qual se manifesta, simbolicamente, na cabeça do Homem, onde estão os olhos, símbolos da percepção da realidade. Assim, o pedido de Peeperkorn significa a consciência do seu pecado contra o Espírito, ao qual suplica por punição.
Também nesse passeio há uma cachoeira, diante da qual ele faz um discurso de despedida inaudível em razão da força da água. A cachoeira tem uma simbologia parceira da montanha. Se esta significa o movimento ascendente ao Espírito, aquela implica o movimento descendente deste, manifestando suas infinitas possibilidades ao homem. Assim, o discurso inaudível de Peeperkorn significa a resposta do Espírito ao seu pedido, como que dizendo: “Cale-se! O que interessa o que você tem a dizer e pedir, diante do que Eu tenho a lhe ofertar?”.
Entretanto, numa honra às avessas, impregnada do orgulho humano incapaz de perdoar a si mesmo, Peeperkorn decide se suicidar com o veneno de uma serpente, o que não poderia ter significado mais óbvio, pois, em conjunto com a águia, representam inimigos simbólicos, significando a dualidade entre o Céu e a Terra, a luta entre o anjo e o demônio. Assim, ao se suicidar, Peeperkorn se entregou de vez ao demônio, recusando uma possível redenção espiritual.
Portanto, tudo o que Thomas Mann enxergava era aviltamento, decadência e desesperança, sendo a Primeira Grande Guerra apenas a consequência inevitável desse estado de coisas e, com ela, encerra-se o livro, simbolizada pelo trovão representando o poder divino, sua justiça e sua cólera. Anuncia ele a destruição iminente, trazendo consigo a possibilidade de uma nova ordem, a que o autor se pergunta: “será que também da festa universal da morte, da perniciosa febre que ao nosso redor inflama o céu desta noite chuvosa, surgirá um dia o amor?“.
É justamente nessa última frase, na última palavra do livro que Thomas Mann denuncia o vazio da sua pedagogia, ainda que consciente daquilo que ela não deveria ser. Realmente, o que quis dizer com “surgir o amor”? Depois de descrever minuciosamente um cenário trágico, deixando claro que o pecado contra o Espírito era o mais grave cometido na sua época, tudo que ele tinha a dizer a respeito do Espírito é isso? Uma vaga referência ao amor? Assim, é inevitável indagar: o que é que ele entendia por Espírito? Aí é que se percebe o quanto Otto Maria Carpeaux acerta na sua rigorosa crítica ao autor: “Thomas Mann não conhece metafísica nenhuma; até as discussões filosóficas de A Montanha Mágica evitam cuidadosamente as últimas questões.”.
Assim, sem uma metafísica que fundamente o que ele quis dizer com Espírito, resta uma montanha de pensamentos inconclusivos, meticulosamente disfarçados “sob as máscaras da estilização”. Porém, como também disse Carpeaux, embora Mann fosse “um grande manejador de pensamentos”, não possuía nenhum da sua própria lavra, sendo que, quando assim tentava, tornava-se confuso. Realmente, isso se percebe nos seus insistentes discursos sobre a natureza do Tempo, reveladores da sua perplexidade com o assunto, mas nebulosos na sua reflexão.
Seguindo as pegadas do grande crítico, pode-se dizer que, nesse livro, Thomas Mann não aceitou seu próprio papel dentro da decomposição que enxergava ao seu redor. Como escritor, cabia-lhe descrever sua experiência pessoal de quem tudo vê, mas nada pode fazer contra a tragédia que se anuncia. Entretanto, prossegue Carpeaux: “a experiência fundamental de Mann é a decadência; experiência vital e, por isso, sem possível solução racional.”. Não foi outra coisa que Mann procurou com seus propósitos pedagógicos, o que encapsulou sua originalidade vital na artificialidade mortífera a todo artista e que é o que fez com que Carpeaux o considerasse um escritor de segunda ordem, ainda que o maior deles.
Por óbvio, não tinha como encontrar uma solução que inexistia, logo, restou-lhe, ao fim, o triste amargor de quem, no fundo e desde antes, sabia perfeitamente disso. Assim, ele não tinha alternativa. Se a solução era impossível e a desistência inaceitável, por ser um pecado ainda mais grave, como retratou com Peeperkorn, a realidade inescapável era a de que aquele “quê heróico” que ele considerava tão fundamental para “empreender uma obra que ultrapassa a medida das absolutas necessidades”, também significava suportar a impossibilidade contingente, porém real, de ultrapassar essa medida. Entretanto, nesse livro, Thomas Mann não admitiu esse fracasso inevitável. Por conta disso, enfraqueceu sua história o suficiente para não se tornar a obra-prima que poderia ter sido.
Posteriormente, como nos conta Carpeaux na referida análise, o autor viria a aceitar essa realidade e o papel que tinha que desempenhar dentro dela, com isso se tornando a figura trágica admirável que, aí sim, tem algo a dizer e talvez ensinar. Também por isso, seu diagnóstico perdura, valendo até mais do que antes. Afinal, viramos o século e a perniciosa febre se tornou um estado normal, habituados que estamos à festa universal da morte que se tornou recorrente. Já não se pode dizer que existam Settembrinis, Naphtas ou mesmo Peeperkorns: até essas grandezas ao avesso se mediocrizaram ao tamanho dos Hans Castorp. A mágica montanha se instalou na planície e se tornou a “realidade”, de tal modo que ninguém mais se considera doente, ao contrário, fazem da doença símbolo mórbido da vida. Quem dera ainda tivéssemos Thomas Mann para nos descrever e retratar.
(a crítica de Carpeaux a Thomas Mann pode ser encontrada no Volume I, dos seus “Ensaios Reunidos”, publicado pela Topbooks)
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