A Seriedade da Alegria
By Francisco Escorsim • Nov 27th, 2007 • Category: Artes Cênicas, Cinema & Televisão, Destaque(Originalmente publicado no jornal “O Estado do Paraná“, de 19/10/2007)
Mesmo quem nunca assistiu a uma apresentação do Cirque du Soleil sabe que seus espetáculos são uma profusão de luzes e cores a emoldurar as acrobacias dos artistas. Então, o que mais se poderia esperar desse que se chama Alegria?
Entretanto, me bastou entrar na tenda onde foi montado o palco para notar que, nesse, o tom era estranhamente soturno. Ainda mais depois do cadavérico apresentador, grotescamente caracterizado, iniciar o show caminhando por entre a platéia, seguido por músicos usando máscaras mais assustadoras do que graciosas e tocando uma canção em ritmo cigano.
De repente, todos pararam e aquele gritou: Alegria! O contraste foi quase chocante, mas não pareceu ser percebido pela platéia que aplaudia efusivamente, no ritmo da canção que já recomeçara. Enquanto isso, artistas fantasiados de modo propositalmente deformado e com andar desconjuntado perambulavam a esmo pelo palco, aparentemente sem razão.
Só quando as aguardadas apresentações dos acrobatas começaram e aqueles não se retiraram é que se pôde entender sua presença: intensificar esse contraste, pois eram precisamente o oposto desarmônico dos graciosos movimentos corporais dos demais integrantes. Como ali permaneceram até o final, o espectador não conseguia escapar do estado de tensão criado pelo embate entre belo e feio, harmônico e dissonante, etc., mesmo que não o percebesse.
Definitivamente, se alegria havia no espetáculo, não era gratuita, o que tornava a presença dos improváveis palhaços, intercalada entre as apresentações acrobáticas, um tanto quanto deslocada, mas, por outro lado, necessária.
Realmente, a alegria se revelava somente quando esses palhaços dissolviam aquela tensão pelo riso provocado, o que significa dizer que o espetáculo não era apenas uma apresentação melhorada de ginástica artística acompanhada de trilha sonora, como confesso que acreditava que seria. Pelo contrário, a alegria ali celebrada tinha sentido, o qual Paul Johnson, em seu último livro Os Criadores, explica melhor a Frankie Howerd, comediante esquecido a essa altura, num jantar qualquer em que se encontravam:
Vocês comediantes, que despertam o riso com o que a natureza lhes dotou, estão sempre entre as pessoas mais valiosas da Terra. Estadistas e generais podem ir e vir, e ambos têm enorme poder. Mas os verdadeiros benfeitores da raça humana são pessoas como vocês, que nos permitem afogar nossas enormes tristezas no riso.
Mas há uma diferença crucial entre comediantes e palhaços. Dificilmente adultos vêem graça nestes, enquanto crianças não entendem aqueles, salvo quando se tornam palhaços também.
Isso é significativo nesse espetáculo porque aquela tensão criada forçava o espectador, mesmo o mais reticente, a se entregar àqueles palhaços, rindo das pilhérias mais banais que em qualquer outra situação não veria a menor graça. Com isso, percebe-se que o riso, na realidade, não dissolvia aquela tensão, mas desarmava o espírito do espectador diante dela, recolocando-o na perspectiva infantil de aceitação do mundo enquanto tal, com tudo o que ele tem de real e irreal, bom e ruim, assustador e encantador, desde a qual se revive o medo do bicho-papão real, ao mesmo tempo em que se resgata o valor incomensurável de exorcizá-lo apenas com uma genuína e descompromissada gargalhada.
Infelizmente, à medida que crescemos e nos tornamos cartesianos, tentamos engolir o mundo com o pensamento, nos deslocando dessa perspectiva, da qual passamos a ter apenas pequenos vislumbres, como nessas exceções momentâneas que, no máximo, aliviam as dificuldades de se viver.
Não é outra a função da obra poética senão nos devolver a essência da existência, o que realmente faz esse espetáculo, desde que o espectador permita, suspendendo sua descrença em relação à irrealidade do que é apresentado, como ensinou Samuel Taylor Coleridge.
Talvez aí se possa entender porque o reino dos céus é das crianças e nele só adentrará quem nelas vier a se transformar e se tornar. Não espanta, portanto, como disse Chesterton, que a virtude dos santos não seja nenhuma outra senão a alegria.
Francisco Escorsim é Francisco Escorsim. "Operibus credite, et non verbis." (Acreditai nas obras, e não nas palavras)
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Prezado Francisco
Nossa, quem lê esse “prezado” pensa que eu sou toda certinha pra escrever!
Não tem nada a ver com este post, desculpe me intrometer assim. Achei seu blog (o antigo) num daqueles acasos de fim de noite… tinha assistido novamente “Magnólia” e entrei numa comunidade do orkut sobre o filme - a bendita discussão sobre a chuva de sapos! Mas alguém sabiamente postou um link para o seu maravilhoso texto sobre o filme. Foi um santo remédio pra quem tinha acabado de levar um pé na bunda do namorado: ler um artigo inteligente, bem escrito. Deu até inveja, hehe… adoro escrever, e valorizo demais as pessoas que se expressam de maneira clara e inteligente como vc.
Espero que vc continue escrevendo por aqui, estarei sempre de olho - acho que vc ganhou uma fã.
Um abraço,
Lo
[N. do E.: Olá, Louise. Obrigado pelos elogios e seja bem vinda para sempre retornar. Outro abraço.]
A Seriedade da Alegria | O Náufrago…
Mesmo quem nunca assistiu a uma apresentação do Cirque du Soleil sabe que seus espetáculos são uma profusão de luzes e cores a emoldurar as acrobacias dos artistas. Então, o que mais se poderia esperar desse que se chama Alegria?…