Little Miss Sunshine, Little Children, Babel, Flags Of Our Fathers & The Queen

By Francisco Escorsim • Apr 1st, 2007 • Category: Cinema, Cinema & Televisão

Não creio existir tema mais caro aos norte-americanos do que o surrado “perdedores x vencedores”. Mas mesmo dentro do recorte da realidade que fazem para realçar este aspecto - que está longe de ter a relevância que a ele dão -, encontra-se belos filmes e grandes personagens.

Eu, particularmente, adoro aqueles filmes do herói solitário que vence tudo e a todos, apesar das condições adversas. Sim, me refiro aos Rambo’s e Rocky’s da vida (aliás, o último Rocky está adorável). Nas últimas décadas, contudo, eles rarearam (a coqueluche por filmes de super-heróis dos quadrinhos só reforça esta ausência) e agora abundam os “losers”, dos quais ora se ri, ora se chora, ora se defende, ora se “aceita como são”, etc… “Litlle Miss Sunshine” é um desses. Até parece um bom filme, porém, para quem já está há mais de uma década na companhia de Seinfeld e Simpsons, é como chover no molhado, sem atingir o mesmo brilho e humor.

No mais, o que poderia ser uma interessante história de recuperação do valor da família, perde-se no vazio de quem, no fundo, não tem nada a dizer. A própria citação de Proust morre literalmente na praia porque não há qualquer vislumbre de que aqueles personagens compreendiam que fazer dos tormentos da vida o seu maior significado e valor era uma tarefa a ser desempenhada para ser transcendida, não o mero aguardar esperançoso por “dias melhores”.

A sorte de “Little Miss…” é que outro filme com “little” no título surgiu na mesma época e bateu todos os recordes de ruindade possível. “Little Children” (Pecados Íntimos) retrata os “losers” dos “losers” de modo tão fiel, mas tão fiel, que se torna um deles. De longe é o pior filme que vi na última década - se bem que “Broken Flowers” também seja forte candidato. Pessimamente mal feito, o que o torna involuntariamente cômico, afinal, vai dizer que não é engraçado precisar de um narrador no início para explicar ao espectador que a moça se interessou pelo moço? E quando ele desaparece depois de falar sem parar durante meia-hora e só volta na última cena, para tentar remendar o que não tem remendo? Que um filme desses tenha concorrido ao Oscar na categoria de melhor roteiro adaptado não diz nada sobre ele, mas tudo sobre o valor da premiação.

Realmente, dada a quantidade de filmes que ultimamente dizem nada com coisa nenhuma, até entendo a razão de ser de “Babel“, se entendido este título em sentido inverso ao significado bíblico. Ou seja, não se trata da confusão de línguas, mas da própria ausência de uma capaz de expressar algo, qualquer coisa. É o vazio em grau quase absoluto. Segundo o mala do diretor, sua intenção era mesmo retratar a incomunicabilidade humana dos dias de hoje, entretanto, tenho minhas dúvidas se ele próprio não foi vítima desta incomunicabilidade e, consequentemente, sendo engolido pelo mesmo vazio. Na realidade, meu problema com “Babel” é o mesmo com “Little Miss Sunshine”: chove no molhado. Aliás, para ser mais preciso: garoa no molhado.

A verdade é que está cada vez mais difícil encontrar um filme que procure abrigo seco, que esteja cansado de ficar de cara para a chuva berrando: “estou me molhando! Estou me molhando!”. O vazio é enfadonho, ficar lustrando-o, então, mais ainda. Por isso é que gosto de Clint Eastwood. Eis um sujeito que sabe o que está fazendo. Não se furta a encarar a mediocridade encharcada do vazio, inclusive a própria. Mas é para espremê-la até o bagaço, deslustrando-a de qualquer valor, restando quase nada, senão um princípio de humanidade. Com isso ele reencontra aquele herói no mais improvável dos lugares: esquecido dentro daquele “loser”.

É o herói que sabe que não vencerá as adversidades, que não se tornará o campeão, ainda que o esforço de marketing consiga assim vendê-lo. É o heroísmo daquele que recusa a mentira interior e suporta a externa, porque nada pode, por ora, contra ela. Trata-se daquela sinceridade mais comezinha, básica e singela possível, por isso mesmo facilmente esquecida ou desdenhada, mas que, sem ela, não há possibilidade de mais nada - daí a aparência de incomunicabilidade quando, no fundo, não se tem mais nada para comunicar senão uma farsa de ser. É só por esta sinceridade que se instaura ou restaura o propriamente humano em cada um de nós. Como ensina Louis Lavelle:

Também, a sinceridade aparece freqüentemente como uma conversão onde, ao reconhecer que nossa vida é ruim, nós já começamos a mostrar que ela é boa.

 

 

 

Eis os heróis “imperdoáveis” de Eastwood que nos aproximam da emoção humana mais significativa: a do ser que se faz porque se entrega a valor maior do que ele, mesmo quando se equivoca a respeito deste ou lhe custe a humilhação do fingimento, como em “The Queen” (que não é dele, mas e daí?). Mas a entrega é apenas o princípio da fidelidade, daí porque o verdadeiro heroísmo não se encontra nos grandes feitos ou na resignação estratégica diante das derrotas, mas na conservação da fidelidade sincera ao(s) valor(es) através do tempo, cuja história jamais terá fim porque vivida no e pelo Eterno. Por isso, todo e qualquer filme só tem condições de retratar momentos desta história, pois do contrário se confundiria com ela, deixando de ser representação para tornar-se a própria realidade representada.

Enfim, o fato de quase não se encontrar mais, na ficção, histórias desses momentos, é indício suficiente de que na “vida real” ela é igualmente escassa, pois se não fosse, teríamos mais frutos da imaginação alimentada pela realidade. Daí porque, se é reconfortante encontrar filmes assim de vez em quando, mais ainda quando se pode enxergá-la na tal da vida real (nos dois sentidos da expressão):

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Francisco Escorsim é Francisco Escorsim. "Operibus credite, et non verbis." (Acreditai nas obras, e não nas palavras)
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6 Responses »

  1. Discordo totalmente de tua avaliação sobre “Little Children” e um pouco sobre “Sunshine”, assim como discordo da redução dos filmes a “retratos de perdedores”. Creio que, com a perspectiva correta e algum conhecimento do personagem, eu possa transformar qualquer vida a uma vida de loser, mesmo a de Rocky (dificuldade média), Rambo (facílimo), a da Rainha (credo, essa é a própria loser, mãe do hiper-loser, sogra da loser-pelo-destino e, oh, a solidão do poder), a da dupla Bush-Blair e mesmo a de Pelé, tão burro e atrapalhado, em oposição à Maradona, tão loser… Basta olhar obliquamente que o loser estará sempre lá, pronto para o uso e abuso. Em qualquer lugar, mas no momento escolhido por nós.

    Abraço.

    [N. do E.: Olá, Milton. Tampouco eu concordo com a redução dos filmes a este aspecto, como disse já no primeiro parágrafo e só me interessou na análise o que o transcendia, o que não ocorre nos dois "littles". Outro abraço.]

  2. Caro Chico,
    Obrigado pela visita.
    Já adicionei seu blog na minha ‘nova casa’ no WordPress.
    Amitiés,
    Beto.

  3. “Loser”, não “looser”.

    N. do E.: thank’s, Dementia. Já está corrigido.

  4. Caríssimo CHICO,
    Vi o filme ontem. Concordo com sua análise. Ainda não vi o “Little Children” e por isso mesmo não entro na polêmica criada pelo Milton.
    A verdade é que Little Miss Sunshine vale apenas pela little atriz e ponto. O resto é vazio e sem sentido.
    Gostei muito do Queen e discordo do Milton.
    Amitiés,
    Beto.

    N. do E.: Olá, Beto. Obrigado pela visita. Quanto a “Little Children”, conselho de amigo: evite. Grande abraço.

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  6. Little Miss Sunshine, Little Children, Babel, Flags Of Our Fathers & The Qu…

    Não creio existir tema mais caro aos norte-americanos do que o surrado %Cperdedores x vencedores%D….

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