Walk The Line
By Francisco Escorsim • Jul 4th, 2006 • Category: Cinema, Cinema & Televisão, Música

“Parece, minha senhora? Não: é! Não sei “parecer”!
Não é somente meu negro manto, bondosa mãe, junto com todas as formas, modos, aparências de pesar, que podem denotar-me verdadeiramente: tudo isto realmente “parece”, pois são atos que um homem pode representar.
Mas eu tenho isto aqui dentro que ultrapassa as aparências: Estas não passam de atavios e galas da dor!”
(Hamlet, Sheakspeare)
Não lembro quem disse que basta conhecer a vida de uma dessas “estrelas do rock”, para que se tenha conhecido a todas as outras. Realmente, o tedioso esquema “sexo, drogas e rock’n roll”, pela infinda repetição do vazio não autoriza diferenciar, por exemplo, um Jim Morrison de um Kurt Cobain. Foram vidas atormentadas, cujo “gênio” criativo, no máximo, embala noitadas de adolescentes e velhos cabeludos cuja perspectiva de vida foi guardada nas capas dos seus discos de vinil.
Mas há artistas que não naufragaram na solidão da péssima companhia de si mesmos e valem ser melhor conhecidos porque, além do seu legado musical ou artístico, servem de exemplo de vida, não de morte. Johnny Cash foi, é um desses e “Walk The Line”, centrando-se no seu início de carreira, conseqüente afundamento no vício do sucesso e terminando com o princípio da redenção proporcionada pela entrega e confiança em June Cash, sua alma gêmea, dá um belo retrato disso.
Entretanto, pode-se considerar o filme um tremendo desperdício, infelizmente.
Assim é, porque foi realizado quando Cash estava à beira da morte, senão já morto e, portanto, sabia-se que ele vinha gravando um testamento em forma de música na série “American Recordings” (cujo volume V (haverá mais um, pelo menos), aliás, acabou de sair do forno). Acontece que essa série, além de ser a culminação daquele processo de redenção mostrado ao fim do filme, significa também a completa transcendência e transfiguração da sua obra musical para algo de outra ordem e valor.
Por isso, nada na vida de Cash pode ser dissociado do que ele fez ao seu final. Logo, toda sua existência só tem real sentido quando iluminada por esse fim. Ou seja, por mais interessantes e relevantes que sejam os momentos escolhidos pelo filme, por não estarem encaixados neste contexto, perdem muito do seu significado, podendo-se considerar um desperdício, tendo em vista o material que os realizadores tinham à mão para contar esta biografia e não usaram.
Mas o que é que ele fez de tão relevante assim ao fim da vida ?
Mais do que se imagina.
Esta série de discos intitulada “American Recordings” é muito mais do que um apanhado de famosas canções americanas e estrangeiras, de todos os estilos, repaginadas na impressionante gravidade da voz de Cash. Não, são canções escolhidas a dedo, pelo significado que as letras (in)voluntariamente retratam daquilo que ele viveu. Ou seja, mesmo quem nunca ouviu Cash ou sequer faz idéia da sua biografia, ao ouvir essas gravações sabe que cada canção se refere à sua vida, o que o expõe de tal modo que é como se já o conhecêssemos intimamente há anos, desde sempre. Por isso, mesmo que ele não tenha composto a maioria dessas canções, a partir de agora elas se tornam mais suas do que dos seus donos originais.
Realmente, a entrega de Johnny Cash em cada sílaba cantada é algo mais do que impressionante. Vê-se um homem à beira da morte, plenamente consciente do fim, dos seus erros, acertos e, principalmente, do valor da sua obra. É alguém que sabe que recebeu mais do que mereceu e por isso percebe que tudo nesta vida é Graça. Daí porque ele se entrega inteiramente nesses discos, não para coroar sua obra, mas para agradecê-la, o que só faz glorificá-la ainda mais.
“Tell me Lord, if you think there’s a way
I can try to repay all I’ve taken from you.
Maybe Lord I can show someone else
What I’ve been through myself
On my way back to you.”(“Why Me Lord”, do primeiro “American Recordings”, composta por Kris Kristofferson)
Mas isto não quer dizer que tudo são flores, ao contrário. Há mais culpas e pecados sendo expiados nessas canções do que virtudes e boas ações sendo laureadas. Há mais medo e angústia do desconhecido pela certeza da ingratidão pouco sábia do que se conquistou no passado. Ou seja, trata-se, na realidade, da libertação de um Espírito aprisionado pela vaidade fútil que se descobre vazio e solitário, cujo destino aparentemente inexorável é o esquecimento, não do mundo, mas dEle.
“I have been ungrateful and I have been unwise.
Restless from the cradle.
But now I realize it’s so hard to see the rainbow
through glasses dark as these.
Maybe I’ll be able from down on my knees.”(“Unchained”, composta por Jude Johnstone, que também serve de título para o segundo “American Recordings”)
Enxergar a solidão em que se está imerso ao fim da existência é o momento mais decisivo da vida de qualquer um. Por mais que Cash tivesse sua esposa ao seu lado, filhos, fãs, trabalho, uma história, um legado, essa solidão é inevitável. Ou seja. não é a solidão pela ausência de companhia, ao contrário, é a solidão de quem percebe ter contas a prestar a um juiz que é si mesmo e também Outro, diante do qual se é defensor e acusador da própria causa.
É, enfim, a solidão inafastável da condição humana, da consciência que se depara consigo mesma, percebendo que a lucidez agora é um estado contínuo, mas terrificante, porque agora é consciência do que se desperdiçou e não deveria ter desperdiçado, do que deveria ter sido feito e não dá mais para fazer. É a consciência da grandeza humana que deveria ser construída e, ainda que o tenha sido, não deixa de ser tão frágil quanto um castelo de areia. É a consciência de que só se viveu em confiança de algo, seja este visto como um futuro, uma idéia, uma obra, Deus, o que for, mas que agora cobra sua conta. E Cash a paga, entregando mais do que os frutos cultivados de um dom. Ele reafirma aquela confiança pela entrega total, irrestrita e absoluta de tudo o que fez de si mesmo e da sua vida.
“Well I know what’s right, I got just one life
In a world that keeps on pushin’ me around
But I stand my ground and I won’t back down
Hey baby, there ain’t no easy way out
Hey I will stand my ground and I won’t back down
No I won’t back down.”(“I Won’t Back Down”, composta por Tom Petty e Jeff Lynne, do terceiro “American Recordings”, intitulado “Solitary Man”)
No quarto e melhor (por enquanto, pelo menos) álbum da série, “The Man Comes Around”, a voz de Cash parece estar por um fio, o que a torna ainda mais significativa e simbólica: Cash já não canta sozinho. Nesse álbum, ele se desfaz de si mesmo, da sua obra, como num retorno ao pó, para dele renascer.
Símbolo maior disto é a gravação da torturante “Hurt”, do Nine Inch Nails, que, com Cash, deixa de ser desesperada e atormentada para se tornar esperançosa e sublime. Os ruídos e barulhos que a gravação original possui são deixados de lado em troca de um singelo dedilhar de um violão e nada mais. Surge a serena voz de Cash, cuja fraqueza se demonstra à plenitude e parece carregar com dificuldade os primeiros versos da letra. Então, no pesado refrão uma única nota de piano aparece como acompanhamento, repetida com maior intensidade a cada segundo, num crescendo que eleva a canção e os nervos a uma altura raramente alcançada por uma canção popular, enquanto Cash, cada vez mais sereno, torna os versos por si só angustiados e desesperadores, insuportavelmente belos.
“What have I become, my sweetest friend.
Everyone I know goes away in the end.
And you could have it all, my empire of dirt.
I would let you down, I would make you hurt.”
Entretanto, como se fosse um milagre se realizando, o insuportável se torna sublime, como a água um dia virou vinho. Os significados das palavras, frases, versos, descolam-se dos signos cantados e o que era para ser pó, torna-se ouro, o que era desapontamento, torna-se júbilo e o que era dor, não deixa de ser outra coisa, mas purificada pela coragem do enfrentamento de si mesmo, serve de testemunho daquilo que é mais humano porque entregue ao que é divino. Assim, quando extasiados chegamos ao final da canção, os versos que originalmente se pretendem mais leves, mas nem por isto menos desesperançados,
“If I could start again a million miles away
I would keep myself I would find a way.”
já não mais atormentam ou entristecem, pois à frente, a quem queira olhar, jaz o homem em forma de voz, desfeito da carne e retornado ao Princípio do Verbo, purificado pela coragem dessa entrega e recompensado pelo brilho da transcendência do símbolo sonoro, da metáfora da melodia, que não mais vê em espelho, mas se encontra face a face, conhecendo como sempre foi conhecido.
Por esta ótica que não é outra, mas a única que interessa, o filme se torna um baita desperdício. Ainda que acerte ao se valer da conhecida canção que lhe serve de título, “Walk The Line”, como explicação implícita da salvação de Cash pelo enlace com June (“because you’re mine, I walk the line”), se “esquece” que essa “linha”, esse caminho teve um fim, como sempre tem. E é exatamente pelo destino da viagem que se julga o itinerário escolhido e percorrido. Daí porque, para mim, a verdadeira “cinebiografia” de Johnny Cash é a que vai abaixo, cujas imagens falam muito mais do que quaisquer palavras escritas poderiam dizer.
Francisco Escorsim é Francisco Escorsim. "Operibus credite, et non verbis." (Acreditai nas obras, e não nas palavras)
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Olá, que bom que voltou. Realmente a “cinebiografia” é boa, assim como seu texto.
Abraço e esperamos mais “posts”.
[N. do E.: obrigado, Raphael. Tbém espero "postar" mais. Um abraço.]
Saudades de suas elegâncias Chico, Não conheço Cash, mas fique curioso agora, Um abraço!
[N. do E.: saudades sinto eu de "algumas letras". Outro abraço, Benjamin.]
Meu caro Chico,
Que maravilha de post. Linkei o novo endereço na capa.
É muito interessante que estava pensando no tema das coincidências, quando me imponho a tarefa de chamar pessoas a um curso sobre a Filosofia de Santo Tomás de Aquino. Eis que o primeiro endereço que visito é o seu novo site. Uma alegria.
É, estou com o Raphael. Esperamos ainda mais.
Amitiés,
BetoQ.
[N. do E.: muito obrigado, BetoQ. Sinto-me deveras honrado pela deferência. Já tinha lido seu post sobre o curso. Realmente, imperdível. Um grande abraço.]
Meu caro Chico,
Volto só pra dizer que estou absolutamente entusiasmado com a música (e letras) do John Cash.
Um ótimo finde pra você do
Beto.
adorei assistir ao filme, mesmo tão triste de fraco, diverti-me (e me emocionei, confesso) só porque sou daquelas fãs que já se contentam com intenção. mas o que sinto como sendo o verdadeiro johnny cash eu também só encontro ao assistir a esse clipe.
fiquei contente em abrir sua página, ver tudo novo e ainda ter como primeiro texto a ser lido, “walk the line”.
bjokas.
[N. do E.: Seja bem vinda novamente, Safiri. A casa é sua.]
Chico,
Rapaz seu texto é muito bom…
Aliás estou sendo muito minimalista ao dizer isso, pois para um bom texto o pre-requisito são idéias consistentes.
Não vi o filme, mas gosto muito de J.Cash.
Mas mais que tudo isso, me entusiasmei muito com o que você escreve.
Grande abraço
[N. do E.: Muito obrigado, Sherazade, pelo entusiasmo que também me motiva.]
Francisco, primeiramente, parabéns pela casa nova e pelo retorno.
Acompanho Cash há um certo tempo, inclusive escrevi um texto tempos atrás exatamente falando a respeito da figura incomum do cowboy.
Creio que mesmo nos E.U.A as pessoas não conseguem sair da superfície com relação às letras e à vida de Cash.
Esse filme, a que eu não assisti,não fez diferente. A relação dele com June foi emblemática, mas há símbolos inescapáveis na vida de Cash que o filme deveria ao menor ter tangenciado.
Mas ,enfim, cinema espiritual ainda é tarefa árdua para muitos.
Aguardo ansioso novos textos.
Grande abraço
Edvaldo Souza
[N. do E.: Obrigado, Edvaldo. Muito em breve vem um novo texto. Aliás, gostaria de ler o seu sobre Cash. Outro abraço.]
nunca ouvi J. Cash, mas alguem que faz o que ele faz com voz e violao merece minha atencao. ainda escuto muito barulho superficial e pouca profundidade.
belo site.
abraco Chico.
[N. do E.: Obrigado, Jota.]
Cash é uma lenda, mas o filme não retratou com perfeição os fatos mais importantes da vida dele;
Seu site é mt bom !
Gostaria de morar em curitba para poder conhecer vc e fazr este curso, mas sou de beagá.
sugestões: textos sobre filmes clássicos do cinema
quanto à música, acho que uma boa pedida é a banda rush, vc n acha ?
bj p/ vc
[N. do E.: Obrigado, Vicky! Sugestões devidamente anotadas. Quanto a não morar aqui em Curitiba, bem, há possibilidade de fazer este curso pela web. É mais fácil do que imagina. De todo modo, volte sempre!]