Carta Aberta a Olavo de Carvalho
Curitiba, janeiro de 2010.
“Não faço versos de guerra,
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!”Manuel Bandeira
Caro Professor,
Um dia desses o meu filho de quatro anos de idade disse à sua mãe que queria ficar doente para poder tomar café da manhã na cama.
- Donde você tirou isso, filho, de que só pode tomar café na cama quando se está doente?
- Ué, dos desenhos que eu vejo; não é assim?
Quando ela veio me contar “mais uma do teu filho”, não pude deixar de me perguntar o que mais o mundo vai distorcer na alma dele com tanta facilidade. E quando penso naquela máquina de entortar gente, como diria Exupéry, sem saber que definia com precisão o que chamam de educação neste país, aí é que quase me desespero, pois, ainda que vez ou outra ele tenha alguém para, senão desentortar, como dessa vez, mas, ao menos, alertá-lo de que a realidade pode ser outra ou não necessariamente tão mesquinha, ainda assim é duvidoso que muitas dessas bobagens aparentemente inocentes passarão incólumes.
Ou seja, por mais que eu me esforce e venha a ser bem sucedido, a realidade é que não conseguirei ser para meu filho nada além de uma oficina mecânica do tipo “martelinho de ouro”, capaz de consertar apenas os amassados mais evidentes da lataria.
E pensando nisso me pus a imaginar que a besteira da vez escapou; que ele cresceu e chegou aos trinta anos acreditando nisso ainda; imaginei-o maltratando sua mulher quando ela lhe pedisse um agrado desses, acusando-a de caprichosa etc.; imaginei-o doente e emburrado na cama porque ela não lhe trouxe o café da manhã; pior ainda, imaginei-o exigindo ser assim servido porque supostamente teria esse “direito”; e assim imaginando, fui me dando conta de que quanto mais imbecil ele ia se tornando, mais parecido comigo ele ia ficando.
Sim, porque se eu fosse narrar a história da principal razão pela qual eu demorei mais de dez anos para te enviar esta carta, ela não seria muito diferente desse exercício de imaginação.
Realmente, faz mais de dez anos que venho ensaiando mentalmente esta carta de agradecimento. Até cheguei a rascunhá-la algumas vezes, mas, de todas, desisti. Poderia enumerar diversas outras razões para isso, mas nenhuma delas é mais decisiva do que a que contaminou a melhor de todas, aquela gratidão mais profunda e perfeita que há, segundo São Tomás de Aquino, aquela em que o agraciado se sente no dever moral de retribuir o benefício recebido “de acordo com suas possibilidades e segundo as circunstâncias mais oportunas de tempo e lugar” (Suma Teológica, II-II, 107, 2, c).
De fato, desde que te conheci através do livro “O Imbecil Coletivo”, eu sabia, simplesmente sabia, que te agradecer apenas com palavras não bastaria. Desde então venho trabalhando, abrindo novas possibilidades, aprimorando minhas poucas qualidades e talentos, de certo modo criando, não apenas esperando, uma circunstância mais oportuna de tempo e lugar para fazer isso decentemente.
Entretanto, como sou brasileiro, é óbvio que eu não poderia fazer isso sem alguma vigarice. Eu não havia percebido isso em mim até ler em teu site aquelas inúmeras mensagens de agradecimento recebidas por ti há mais de década. Lendo-as, confirmei o acerto de não ter feito o mesmo, pois dada a minha necessidade de retribuição etc., a mensagem, nesse sentido, não teria passado de um cheque pré-datado que até hoje ainda não possui fundos para ser sacado. Entretanto, por outro lado, eu percebi que havia alguma coisa de errado em mim, pois me peguei maldosamente menosprezando aquelas pessoas, como se o que eles fizeram fosse algo de indigno.
Mas de onde foi que eu tirei isso? Onde foi que eu aprendi que seria coisa muito feia agradecer aos outros dizendo simplesmente “muito obrigado”? Quem foi que me ensinou que para dizer esse singelo “muito obrigado” seria preciso mais do que dizê-lo com sinceridade total, de coração aberto? De onde veio essa idéia de que para uma ação de graças ser válida seria indispensável a retribuição prévia do benefício concedido?
Ainda não tenho respostas, embora eu já possua algumas boas pistas que me levam à infância, como não poderia deixar de ser, onde lá sei que hei de encontrar algo tão tolo e banal como a idéia incutida em meu filho de que só se poderia tomar café da manhã na cama quando se estivesse doente.
Mas isso não vem ao caso agora. O que interessa é que vivi até hoje acreditando cegamente que praticar ação de graças representaria uma confissão de fraqueza, de falta de amor-próprio, de algo que só faria sentido e valeria se servisse como moeda de troca. Ou seja, descobri que fazia de uma das coisas mais belas da vida - agradecer alguém pelo bem que esse alguém lhe fez - um motivo de escambo, de comércio. Triste miséria humana.
Mas não é só isso, afinal, já disse, sou brasileiro e, como tal, trago em mim aquele quanto de genialidade travessa suficiente para tudo justificar, de modo que eu jamais pudesse me enxergar como o ingrato que de fato sou, mas até mesmo alguém dotado de um suposto senso moral superior. Para tanto, bastou considerar, sem nem perceber que assim fazia, essa necessidade de retribuição como sendo uma obrigação jurídica, não moral, o que significa dizer que ela já não se vincula mais nem ao reconhecimento do benefício recebido, mas tão-somente a um suposto dever de contraprestação, coisa que, em Direito, independe da parte reconhecer o direito do outro. Logo, não era nada difícil eu me considerar até mesmo magnânimo, pois, assim sendo, eu poderia vir a te retribuir ainda que tu não mais merecesses. É o que dá ser brasileiro…
Por sorte eu tenho a Luciane (de quem nada preciso falar, certo?) e, pelo visto, ainda me resta um pingo de vergonha na cara para não fazer como tantos outros de seus ex-alunos que, quando revelados a si próprios pagando um mico maior do que um King Kong (para usar uma imagem usada por ti de modo recorrente), rapidamente desviaram o olhar e seguiram “em frente”, fingindo independência e superioridade, mas na realidade não se tornaram nada além de personagens ainda mais irônicos do que eram antes.
É até compreensível essa atitude, afinal, é assustador se enxergar tão imbecil, banal, mesquinho, covarde, ruim. É compreensível, mas não é justificável e eu tenho horror só de pensar que, de idiota, passei esse tempo todo sendo passível de ser confundido com essa escumalha macunaímica.
Não mais.
Eu posso falhar em tudo nesta vida, todos os meus projetos e sonhos podem naufragar miseravelmente, mas esse tipo de gente eu não sou nem vou me tornar. Não serei leviano a ponto de falsificar minha biografia, como tantos por aí, ao diminuir a tua importância na minha história de vida. Não fingirei que tomei conhecimento da existência de gênios como Louis Lavelle, George Bernanos, Eric Voegelin, Lipot Szondi, Paul Diel, Viktor Frankl, Thomas Wolfe, Rene Girard, Mario Ferreira dos Santos e tantos outros do mesmo quilate, não fingirei de modo algum que os conheci assim como que por acaso, como se eu soubesse onde encontrá-los e, mais ainda, reconhecê-los. Não, eu só fui apresentado à realidade porque numa tarde vazia de uma quinta-feira do outono de 1998 eu topei com o seu “O Imbecil Coletivo”. Eu nem sabia o que buscava (embora procurasse como quem busca o ar para viver debaixo de escombros de uma casa desmoronada), mas reconheci que havia encontrado e nesses mais de dez anos não tenho feito outra coisa senão perseverar nesse encontro, ainda que mal e porcamente, como pode ver.
Por isso, esta carta de agradecimento segue aberta a qualquer um que a queira ler, também porque vem deste blog a causa dessa possível confusão.
Além disso, agora que limpei a vista, não é que me dei conta de que ele serve ao menos como um início daquela retribuição de que falei e em que ainda estou trabalhando?
Embora ela não expresse com exatidão a imensidão do meu agradecimento a ti por tudo o que me possibilitou nesses dez anos, ao menos a esboça, permite ter dela uma noção. Refiro-me às críticas (ou resenhas, ou ensaios, whatever) de filmes ou livros que publiquei por aqui, o que fiz não por exibição nem “ejaculação precoce”, quero desde logo esclarecer. O que não são mais do que exercícios de autoconhecimento e aplicação dos resultados das aulas que tive e ainda tenho com a Luciane (daí a razão, também, pela qual não houve qualquer preocupação com estilo, rigor filosófico, método etc.), foram aqui publicados porque milagrosamente eu percebi desde o princípio que precisava disso para ajudar a içar-me de uma interioridade por demais nebulosa e paralisante. É por terem sido escritos assim, com essa disposição de espírito e conseqüente sinceridade que, quero crer, independente de suas qualidades ou defeitos, que esses textos são perdoáveis - algo que, se bem aprendi de tuas aulas, é tudo o que basta nesta vida.
Daí porque eu não posso ser como tantos que se remoem pelos escritos de juventude ou agradecem pelo fato deles jamais terem vindo a público. Ainda que no futuro eu seja tentado a me envergonhar deles - e serei, tenho certeza disso, pois estão repletos de erros gramaticais (alguns horrorosamente escritos, reconheço), prolixos ao extremo, sem esquecer os possíveis equívocos filosóficos ou de interpretação -, eu não tenho esse direito, pois se eu não os tivesse publicado eu jamais teria tido a chance de tomar consciência de quem eu era, sou e posso vir a ser; eu jamais teria me descoberto tão pequeno, mesquinho e aviltante, muito menos teria sido agraciado com essa oportunidade de me tornar um pouquinho melhor (ou menos pior) do que isso.
Por fim, perdoe-me esta longa carta, os erros de português que certamente cometi, bem como a demora em te agradecer, embora, é verdade, este pecado eu tenha cometido mais contra mim mesmo. De fato, se ela não pode mais ser, como deveria ter sido, o princípio de tudo, pois já há uma história sendo contada mesmo sem ela, nada impede que nesse meio do caminho ela me permita re-significar aquele início, retornando àquele momento em que “Mi ritrovai per una selva oscura / Che la diritta via era smarrita”.
Daí porque, reencontrado o caminho da via reta, eu me sinta agora como meu filho logo depois de sua mãe lhe ter esclarecido que ele poderia tomar café da manhã na cama sempre que possível, tanto assim que ele poderia escolher o que quisesse para o do dia seguinte. Ele, então, depois de muito aflito e de tanto pensar, respondeu:
- Ai, mãe, vamos precisar fazer uma lista!
- Lista? Mas, por que, filho?
- Ah, porque quando eu durmo o sono apaga todos os meus pensamentos e daí eu vou esquecer tudo o que eu quero.
Estou cansado de viver dormindo, professor, cansado de deixar minha brasileirice me desviar do melhor que há em mim, fazendo-me não propriamente esquecer a lista de coisas que quero fazer, mas aquelas que devo fazer - pouco importando se eu as queira ou delas goste -, se é que eu, de fato, quero ser alguém um dia. É verdade que já fiz muito do que é do meu dever, mas faltava o mais simples e também o mais importante: muito obrigado, mesmo e de coração, por tudo; literalmente, por tudo.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.Carlos Drummond de Andrade
De mais um moleque mal-educado,
Francisco Escorsim